Treze anos depois do início das obras do VLT — projeto abandonado após denúncias de desvio de verba — a avenida Tenente-Coronel Duarte (Prainha) volta a ser canteiro de obras com a promessa de um novo modal: o BRT. A reportagem ouviu moradores e transeuntes da região para entender como a população recebe as intervenções em uma das áreas mais movimentadas da Capital.
O aposentado Daniel Santos Souza, que mora há 26 anos em Cuiabá e retornou recentemente após quatro anos fora do Estado, não esconde o ceticismo. "Olha, o trem não funcionou. Desviaram a verba toda. Dizem que tem um resto de dinheiro aí, quero ver se vai funcionar. Em Goiânia eu vi o BRT funcionando. Lá, o governador é homem, não roubou dinheiro, não", afirmou.
Daniel, que trabalha com pequeno comércio na Praça Alencastro, aponta impactos diretos no dia a dia: "Toda hora tem engarrafamento, bate carro. Tá feio. As obras em São Paulo andam rápido porque trabalham à noite. Aqui só trabalham um pouquinho de manhã e de tarde, e olhe lá."
O comerciante João Rodrigues Pereira, há 14 anos no centro, questiona a decisão de abandonar o VLT. "Acho que teria sido mais viável ter terminado a obra que estava pela metade. Os vagões já tinham. Gastaram só para desfazer o que estava feito." Apesar disso, mantém esperança: "Apesar da gente ver muita vagareza, espero que termine e que fique bom."
Edilson, morador da Agrovila das Palmeiras que viveu 33 anos em Várzea Grande, defende o modelo escolhido. "Era o que devia ter sido feito desde o começo. O BRT de Curitiba funciona, é bem ajeitado. Aqui é um bom investimento do Governo do Estado."
Abel Nunes, do bairro Tijucal há mais de 40 anos, criticou o ritmo dos trabalhos: "Essas obras estão muito paradas, muito lentas, não saem nunca. Tá devagar demais, não tem nem como a gente andar aqui no centro."
Entre as vozes otimistas, Edgar, há 41 anos em Cuiabá, avalia que o andamento está satisfatório. "Já começou agora aqui, mas tá num ritmo bom, tô gostando. Teve umas duas ou três paralisações, mas agora retomou o andamento e tá tudo certo." Para ele, os transtornos são temporários: "É igual quando a gente reforma a casa: dá trabalho, mas passa. Agora vai, depois de mais de 13 anos de espera, parece que dessa vez anda."
Em setembro, a concessionária Águas Cuiabá, responsável pela obra, que já foram implantados 15.474 metros de rede de esgoto, 1.658 metros de rede de drenagem, 120 caixas combinadas, além da revitalização de 433 bocas de lobo. Na etapa de limpeza, mais de 120 toneladas de resíduos foram retiradas das galerias.
As obras do BRT seguem em andamento sob responsabilidade do Governo do Estado, mas carregam o peso da memória do VLT inacabado e da desconfiança acumulada ao longo de mais de uma década.Leia matéria relacionada - Obras da Prainha avançam e reduzem risco de alagamentos em Cuiabá