
A confirmação do El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) nesta quinta-feira encerra meses de expectativa entre meteorologistas e abre uma nova fase de monitoramento sobre os possíveis impactos do fenômeno no Brasil. A agência norte-americana informou que as condições já estão estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial e apontou 63% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Ou seja, a discussão agora não é mais sobre se o fenômeno vai acontecer, mas qual será sua intensidade no planeta.
Embora ainda exista incerteza sobre a magnitude final do aquecimento das águas do Pacífico, especialistas afirmam que alguns efeitos já podem ser antecipados com base no comportamento histórico do fenômeno. No Brasil, o principal sinal costuma aparecer na distribuição das chuvas e no aumento das temperaturas.
A tendência mais consistente está concentrada na Região Sul. Historicamente, episódios de El Niño favorecem a ocorrência de chuva acima da média em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, especialmente durante a primavera e o verão. O cenário eleva o risco de temporais, enchentes, alagamentos e deslizamentos em áreas vulneráveis.
— O El Niño funciona como um pano de fundo que aumenta a propensão para determinados extremos climáticos, especialmente chuva acima da média no Sul. Mas eventos como o do Rio Grande do Sul envolvem uma combinação muito complexa de fatores meteorológicos e hidrológicos — afirmou ao GLOBO a meteorologista Andrea Ramos.
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Segundo nota técnica divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Rio Grande do Sul apresenta atualmente o sinal mais robusto entre os estados analisados. O órgão aponta maior frequência potencial de episódios de chuva intensa e acumulados elevados em curtos períodos.
No Norte e em parte do Nordeste, a projeção é inversa. O fenômeno tende a reduzir a ocorrência de chuva e aumentar as temperaturas, cenário que pode favorecer estiagens mais prolongadas, pressão sobre reservatórios e aumento do risco de queimadas, especialmente em áreas da Amazônia e do Pantanal.
Já no Sudeste e no Centro-Oeste, os impactos costumam ser mais irregulares. O padrão mais comum envolve períodos de calor persistente, alterações na frequência das frentes frias e mudanças na distribuição das chuvas ao longo da estação chuvosa.
O rápido aquecimento observado no Pacífico nos últimos meses é um dos fatores que chamam a atenção dos centros meteorológicos internacionais. Modelos climáticos indicam que o fenômeno deve ganhar força durante este segundo semestre.
— A diferença prática é que um evento forte consegue dominar sobre outros fatores climáticos e impor padrões de seca e chuva muito mais severos e previsíveis. Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico acelerado e consistente desde maio, indicando que o fenômeno deve assumir protagonismo no clima do segundo semestre de 2026 — explica ao GLOBO João Hackerott, CEO da Tempo OK.
Apesar da confirmação do fenômeno, meteorologistas ressaltam que ainda não é possível afirmar se o episódio atual atingirá a categoria dos chamados "super El Niños", termo informal utilizado para eventos excepcionalmente intensos. A NOAA estima 63% de probabilidade de que o fenômeno se torne muito forte, mas a resposta da atmosfera ao aquecimento do oceano continuará sendo decisiva para determinar sua intensidade final.
— O que existe hoje é um consenso científico sobre a formação do El Niño, mas ainda não sobre sua intensidade final. Os próximos meses serão decisivos para entender até onde esse aquecimento do Pacífico pode avançar e quais serão os reflexos mais diretos no clima da América do Sul — afirmou Andrea Ramos.
A expectativa dos centros de monitoramento é que o fenômeno alcance seu pico entre o fim da primavera e o início do verão, período em que seus efeitos costumam se tornar mais evidentes sobre o clima do continente sul-americano.