Meio Ambiente Internacional
Super El Niño pode causar 450 mil mortes até fevereiro, diz estudo
Super El Niño pode causar 450 mil mortes até fevereiro, diz estudo
23/09/2026 10h24
Por: Redação Fonte: UOL
Imagem: ORLANDO SIERRA/AFP

Super El Niño pode provocar mais de 450 mil mortes adicionais por calor no mundo nos próximos seis meses, de acordo com estimativas reunidas em um novo relatório citado pelo The Guardian.

O que aconteceu
Pesquisadores projetam 451 mil mortes extras por causa do aumento de temperatura associado ao fenômeno entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. A estimativa se soma às mortes precoces ligadas ao aquecimento global, e o grupo também espera impactos indiretos de secas, incêndios e enchentes típicos de eventos de El Niño.

O relatório aponta que as projeções ajudam a direcionar medidas de proteção em regiões mais vulneráveis. Entre as ações citadas estão previsões de calor mais precisas, centros de resfriamento para abrigar a população, reforço de equipes em serviços de saúde nos períodos mais quentes e proteção a trabalhadores expostos ao sol.

O El Niño atual já superou o recorde de temperatura registrado para o fenômeno antes mesmo do pico esperado. Cientistas ouvidos pelo jornal descrevem o evento como muito acima do padrão histórico e alertam que o aquecimento causado por atividades humanas pode intensificar seus efeitos.

Para o professor Michael Greenstone, da Universidade de Chicago e cofundador do Climate Impact Lab, o número resume perdas concretas no cotidiano. "A estimativa de 451.000 pessoas é um número tão grande que pode anestesiar, mas ele é formado por pais e filhos, avós e vizinhos, pessoas indo trabalhar, cuidando de suas famílias e vivendo suas vidas", disse Greenstone ao The Guardian.

Os países mais atingidos no período analisado tendem a ser nações tropicais, segundo o relatório. Nigéria, Indonésia, Sudão, Índia e Brasil aparecem entre os mais afetados, enquanto os EUA entram no top 20, com projeção de 3.500 mortes adicionais por calor.

Os países mais atingidos no período analisado tendem a ser nações tropicais, segundo o relatório. Nigéria, Indonésia, Sudão, Índia e Brasil aparecem entre os mais afetados, enquanto os EUA entram no top 20, com projeção de 3.500 mortes adicionais por calor.

Como foram feitas as projeções
Os autores dizem ter usado métodos revisados por pares para relacionar, mês a mês, temperatura e mortes adicionais por calor em 24.378 regiões do mundo. Em seguida, combinaram esse histórico com previsões de elevação de temperatura associada ao El Niño nos próximos meses.

A base de comparação foi a média mensal de mortes por calor entre 1996 e 2025. Greenstone afirmou que a ideia é dar previsibilidade a um desfecho mais grave do que perdas agrícolas, ao permitir alertas e respostas antecipadas.

O pesquisador argumenta que a divulgação não poderia esperar a publicação acadêmica por causa da urgência. "As pessoas conseguiram prever quando haveria choques nas safras e dar aviso prévio disso. Este novo relatório está abrindo a porta para fazer isso para um resultado ainda mais importante, que é a morte. Teria sido irresponsável guardar isso", disse Greenstone ao The Guardian.

Risco imediato e alerta para o futuro
A equipe afirma que o El Niño funciona como um retrato do clima que a crise climática pode tornar comum em cerca de 20 anos. Para a pesquisadora Tamma Carleton, da Universidade da Califórnia em Berkeley, respostas emergenciais podem salvar vidas agora, mas não resolvem o problema de longo prazo.

Carleton defende que governos e serviços públicos se preparem para um cenário em que extremos de calor se tornem rotina. "Aumentar a resposta emergencial e direcionar melhor nossos esforços pode salvar muitas vidas neste ano. Mas, daqui a 20 anos, quando as temperaturas extremas de hoje virarem o novo normal, não queremos viver em um estado constante de emergência. Precisamos nos mobilizar agora para desenhar, implementar e avaliar as ferramentas que vão salvar vidas nos próximos anos", disse ao The Guardian.

Especialistas alertam que o fenômeno se desenrola sobre um planeta já mais quente por influência humana. "O evento [atual de El Niño] é uma enorme redistribuição de energia no sistema climático e é perigoso, porque está acontecendo em cima de um sistema climático muito mais quente, influenciado por humanos", afirmou a professora Friederike Otto, do Imperial College London, ao The Guardian.

Otto diz que isso aumenta a chance de ondas de calor sem precedentes e pressiona saúde, água e comida. "Então, em muitos lugares do mundo veremos extremos de calor nunca antes vividos, com todas as consequências para a saúde, a segurança alimentar e o estresse hídrico.

O El Niño vai e volta, mas, enquanto continuarmos queimando combustíveis fósseis, ele ocorre sobre uma base cada vez mais quente, o que torna muito mais difícil para as comunidades lidar com as consequências", completou.