Por Luiz Fernando Fernandes
Quero apresentar a vocês um casal que, provavelmente, já mora na sua casa. Ele é o Sr. Depois. Ela, sua amada esposa, a Sra. Amanhã. Simpáticos, educados, sempre com uma boa desculpa na ponta da língua. Juntos, esses dois nos vestem com a roupa do super-homem e nos convencem de que temos todo o tempo do mundo.
Qual é, de fato, a maior força de um homem? Muitos têm sua resposta pronta. Eu tenho a minha, e ela passa, obrigatoriamente, pela casa desse casal.
Porque o Sr. Depois e a Sra. Amanhã não moram em qualquer lugar. Moram na nossa mente. E aqui entra uma verdade incômoda: a mente mente. Sim, senhoras e senhores, esta coisinha que parecia ser controlada por nós pode estar nos sabotando há muito tempo.
Daí, o sedentário passa meses pensando em comprar um tênis para correr a próxima Corrida de Reis. Outro, entalado no sofá, planeja sua atuação heroica numa hipotética invasão alienígena. Ninguém começa hoje. Hoje é dia de planejar. Começar fica para depois. Ou para amanhã.
E o casal tem um sócio: o ego. É ele que faz o sujeito chegar à academia zombando dos pesos de 8 quilos. É ele que sussurra: fui bem-sucedido, ganhei a discussão, estou mais espiritualizado. E quem estabeleceu esses critérios? Nós mesmos, naquela avaliação generosa em que somos candidatos, jurados e donos do troféu.
O ego tem dificuldade em aceitar começos pequenos. E quem só aceita começar grande pode acabar não começando nunca. O Sr. Depois agradece.
Na cabeça, erguemos o peso do mundo. Na vida, adiamos uma caminhada de dez minutos.
E não me venha falar em magnésio não sei o quê, vitamina tal, produto X, chá não sei de quê como se isso, sozinho, resolvesse a questão. De que adianta colocar gasolina aditivada em carro parado na garagem? As borrachas ressecam, as mangueiras racham, a ferrugem avança. Um tanque cheio não substitui o movimento.
Com a vida também há coisas que se desgastam enquanto esperamos: a disposição, os vínculos, a coragem de tentar. Uma conversa adiada vira distância. Um projeto guardado vai ficando estranho até para quem o sonhou.
Há pausas que precisamos respeitar. Há dores diante das quais precisamos de ajuda. Mas há também aquela velha desculpa que conhecemos pelo nome e continuamos convidando para sentar.
É dessa que estou falando.
Penso na cena que Raul Seixas descreve em “Ouro de Tolo”: alguém imóvel, esperando a morte chegar. Mas o casal que apresentei produz uma armadilha ainda mais discreta. Seus hóspedes nem pensam na morte. Estão certos de que o amanhã está garantido.
Não se movem porque poderão fazê-lo depois. Não dizem o que sentem porque haverá outra oportunidade. Não começam porque ainda não chegou a hora ideal.
E assim os dias passam, o depois vira hábito e, quando nos damos conta, parte da vida foi consumida pela espera.
O tempo não pede nossa autorização para acabar.
Game over…
Então, meus amigos, eis a minha resposta: a nossa maior força é reconhecer e trabalhar as nossas fraquezas.
E eu começo por mim. O que me distrai? Que mentiras já não me incomodam? Quais são os pequenos e “inofensivos” pecadinhos que costumo praticar? Por que não gosto de fulano? De onde vem esse sentimento? O que venho adiando, mesmo sabendo que precisa da minha atenção?
A lista pode ser interminável. Faça a sua. E escolha por onde começar. Não precisa resolver a vida inteira antes do jantar.
Vamos ligar as luzes, iluminar os cômodos da alma. Alguns vão revelar uma bagunça que preferíamos não ver. Paciência. Agora sabemos onde é preciso trabalhar.
E a transformação não começa depois, nem amanhã. Começa hoje, e começa pequena:
Tire dez minutos para si. Respire fundo, medite, fique em silêncio, sem celular.
Converse com o sagrado. Uma oração curta já serve.
Troque uma única coisa no prato de hoje. Só uma.
Mexa o corpo dentro das suas possibilidades. Uma volta no quarteirão vale mais do que o tênis que ainda está na vitrine.
Leia uma página antes de dormir. Uma só. Amanhã, leia outra.
E vigie seus pensamentos. Principalmente os que começam com “depois eu…”.
Essa é a melhor receita do mundo? Claro que não. É só um caminho. Existem inúmeros. Encontre um que faça sentido para você e dê o primeiro passo. Se precisar de companhia ou de ajuda, procure. Só não deixe o Sr. Depois decidir por você.
Lembre-se: você é forte.
Mas, se sua mente usar essa força como desculpa para dizer que você pode deixar tudo para amanhã, desconfie.
Pode ser aquele casal querendo renovar o aluguel.
Que o Deus em que você acredita te acompanhe nesta jornada.
Luiz Fernando é jornalista em Cuiabá
@luizfernandofernandesmt