Quinta, 10 de Setembro de 2026

Morte de 4 irmãos sozinhos em casa expõe drama de crianças que crescem longe dos pais na China; entenda

Quatro crianças foram encontradas mortas após beberem veneno em uma casa onde viviam sozinhas; caso está ligado ao êxodo de trabalhadores rurais que deixou milhões de filhos aos cuidados dos avós.

10/09/2026 às 12h59
Por: Redação Fonte: G1
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Morte de 4 irmãos sozinhos em casa expõe drama de crianças que crescem longe dos pais na China — Foto: Reprodução/TV Globo
Morte de 4 irmãos sozinhos em casa expõe drama de crianças que crescem longe dos pais na China — Foto: Reprodução/TV Globo

A história de quatro irmãos mortos dentro de um quarto na China revela um dos lados menos conhecidos do rápido desenvolvimento econômico do país: o custo humano da migração de trabalhadores das áreas rurais para os grandes centros industriais.

O menino mais velho tinha 13 anos. As três irmãs tinham 9, 7 e 5 anos. Os quatro viviam sozinhos e frequentavam a escola, mas não havia nenhum adulto responsável por eles.

As crianças se alimentavam apenas de farinha de milho crua. O pai, que havia deixado a região para trabalhar, enviava o equivalente a R$ 500 por mês. Sem alguém que cuidasse delas, os quatro foram encontrados mortos depois de beberem juntos um frasco de veneno.

 

O caso aconteceu em uma região rural da China e funcionários do governo foram demitidos após a tragédia. A cidade chegou a ser fechada para a imprensa durante três semanas.

Até hoje, não se sabe qual era o rosto das quatro crianças. O único registro da história é uma fotografia do quarto onde elas viviam.

Crianças deixadas para trás

 

A tragédia está relacionada a um fenômeno que marcou o crescimento econômico chinês nas últimas décadas: a migração em massa de trabalhadores rurais para outras regiões do país.

Na província de Guizhou, onde fica a ponte mais alta do mundo, cerca de 600 mil pessoas deixavam a região todos os anos para trabalhar principalmente na indústria têxtil. No início desse processo, a reportagem afirma que o salário médio era de US$ 25 por mês.

Os trabalhadores recebiam alojamento e alimentação e enviavam boa parte do dinheiro para suas famílias.

O movimento ajudou a tirar milhões de pessoas da pobreza, mas também separou pais e filhos. Segundo a reportagem, quase 90 milhões de crianças chinesas ficaram para trás durante esse processo e passaram a ser criadas principalmente pelos avós.

Hoje, a China tem cerca de 180 milhões de trabalhadores migrantes rurais, de acordo com o material exibido na reportagem.

 

O sistema que separava pais e filhos

 

Uma das razões para essa separação era o chamado sistema hukou, um registro de residência que, durante décadas, dificultou o acesso dos trabalhadores migrantes e de seus filhos a serviços públicos nas cidades onde eles trabalhavam.

Na prática, famílias originárias de regiões como Guizhou podiam se mudar para trabalhar em fábricas, mas não tinham os mesmos direitos de acesso a serviços urbanos. Os filhos, por exemplo, não podiam simplesmente ser matriculados nas escolas próximas às fábricas.

Isso criou uma enorme força de trabalho barata, fundamental para o modelo econômico chinês das últimas quatro ou cinco décadas.

 

Medidas após as tragédias

 

Nos últimos anos, o sistema foi flexibilizado. Algumas escolas passaram a aceitar filhos de trabalhadores migrantes, embora ainda existam restrições, como a realização do vestibular no local de origem.

Após casos como o dos quatro irmãos, o governo também passou a adotar medidas de acompanhamento de crianças que vivem sem os pais. Elas passaram a receber mais apoio da polícia e do Ministério da Educação e a ser monitoradas por celular.

Essas medidas teriam contribuído para reduzir o problema.

Ao mesmo tempo, a China tenta mudar a imagem dessas regiões rurais. Guizhou, por exemplo, passou a ser apresentada como um novo destino turístico, com grandes obras de infraestrutura, internet 5G e iniciativas para estimular a economia local.

A reportagem, porém, mostra o contraste entre essa imagem e a realidade de comunidades que perderam parte de sua população para os grandes centros industriais.

A ponte de 625 metros sobre o cânion, símbolo da capacidade chinesa de construir grandes obras em tempo recorde, está justamente em uma dessas regiões.

De um lado, infraestrutura, tecnologia e turismo. Do outro, uma história de crianças que ficaram para trás durante o processo que ajudou a transformar a China em uma potência econômica.

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