
Angélica Saraiva de Sá, conhecida como “Angeliquinha”, está em isolamento na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá, após ser recambiada de Mato Grosso do Sul para o sistema penitenciário mato-grossense. Apontada como uma das principais lideranças de uma facção criminosa no extremo norte do Estado, ela foi incluída no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que impõe condições especiais de custódia e restrições de contato com outras detentas.
Em entrevista, o delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, titular da Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), explicou que a medida foi determinada pela Justiça diante da periculosidade atribuída à investigada e das suspeitas de que ela continuava exercendo funções de liderança na organização criminosa mesmo durante o período em que esteve foragida.
O regime foi estabelecido inicialmente por 180 dias, com possibilidade de prorrogação mediante nova decisão judicial fundamentada. Segundo o delegado, o RDD prevê isolamento, maior controle sobre a rotina da presa e restrições previstas na Lei de Execução Penal.
“Ela fica sem contato com as demais presas”, explicou Victor Hugo. O regime também prevê redução dos períodos de visita e de banho de sol, além de vigilância reforçada por parte dos policiais penais.
Angeliquinha chegou a Cuiabá na terça-feira (20), após permanecer custodiada em Corumbá (MS), para onde foi encaminhada depois de ser recapturada na Bolívia. A transferência foi realizada pela Polícia Civil, com participação da Draco, da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) e da Gerência Estadual de Polinter e Capturas (Gepol), além do apoio do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer).
Segundo o delegado, a transferência seguiu os protocolos de cooperação internacional e exigiu planejamento para garantir a segurança da custodiada e das equipes envolvidas.
Victor Hugo negou que tenha havido demora no retorno da investigada a Mato Grosso. Ele explicou que, após a captura no exterior, foi necessário cumprir procedimentos legais, realizar a entrega às autoridades brasileiras e organizar o transporte até Cuiabá.
“Não houve demora. Existem trâmites administrativos que precisam ser cumpridos”, afirmou. O delegado acrescentou que o planejamento também levou em conta o risco de uma possível tentativa de resgate ou de represálias. Por questões de segurança, as datas e os detalhes da operação não foram divulgados antecipadamente.
Capturada na Bolívia após fuga
Angeliquinha foi localizada em 22 de setembro, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, durante uma ação integrada entre a Polícia Civil de Mato Grosso e as autoridades bolivianas, com apoio da cooperação policial internacional.
Ela estava foragida desde 17 de agosto de 2025, quando fugiu da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá. Após ser entregue à Polícia Federal brasileira, em 24 de setembro, foi encaminhada ao presídio feminino de Corumbá, onde aguardou a transferência para Mato Grosso.
A entrada dela na unidade prisional de Cuiabá foi autorizada pela Secretaria de Estado de Justiça (Sejus). Agora, ela permanece à disposição da Justiça mato-grossense.
De acordo com Victor Hugo, Angeliquinha acumula condenações que ultrapassam 260 anos de prisão por crimes como homicídios, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Ela é apontada pelas investigações como uma das principais lideranças de uma facção com atuação no extremo norte de Mato Grosso, especialmente em Alta Floresta e Nova Bandeirantes.
O delegado descreveu a investigada como uma criminosa de alta periculosidade, suspeita de coordenar atividades ligadas ao tráfico de drogas e de utilizar empresas de fachada para ocultar recursos ilícitos.
Segundo ele, a estrutura financeira investigada também teria beneficiado integrantes do núcleo familiar da suspeita, por meio de movimentações destinadas a dar aparência legal ao dinheiro.
Parte das investigações foi conduzida no âmbito da Operação Showdown, deflagrada pela Polícia Civil em março de 2026 para atingir o núcleo familiar apontado como responsável por dar suporte às atividades criminosas e auxiliar na lavagem de dinheiro.
Na ocasião, foram cumpridas 31 ordens judiciais, incluindo mandados de prisão e busca e apreensão, sequestros de veículos e imóveis, bloqueios de contas bancárias e suspensões de pessoas jurídicas.
Conforme a Polícia Civil, as investigações identificaram movimentações financeiras superiores a R$ 20 milhões em aproximadamente um ano e sete meses. Os valores foram considerados incompatíveis com a renda declarada pelos investigados, e empresas e outros negócios teriam sido utilizados para dissimular a origem dos recursos.
Para o delegado, a recaptura e o retorno de Angeliquinha ao sistema penitenciário representam um avanço no enfrentamento à organização criminosa. A inclusão no RDD busca impedir que ela continue exercendo influência sobre integrantes do grupo a partir da prisão.
O caso segue sob acompanhamento judicial, e a permanência no regime disciplinar diferenciado poderá ser reavaliada conforme as condições previstas na decisão que determinou a medida.